Introdução a macroeconomia

Sumário

Esta é uma resenha dos primeiros capítulos do livro Introduçào à Macroeconomia (Stiglitz e Walsh, 2003) da disciplina de Fundamentos Econômicos do Mestrado Profissional em Administração da Fundação Pedro Leopoldo

Capítulo 1

Macroeconomia e a Perspectiva Econômica

O foco do livro é a macroeconomia que é o estudo da economia como um todo, do emprego e do desemprego totais e do nível geral de preços de toda a economia.

A média industrial Dow (precursora do Dow Jones, indicador do preço das ações), era 381 em setembro de 1929 e caiu até 41 em julho de 1932. O colapso da bolsa aconteceu em outubro de 1929 e os preços caíram 25%. Em 1933 o desemprego era de 25%.

A ciência econômica passou a ser reconhecida com a publicação em 1776 da obra A riqueza das nações, de Adam Smith.

O nascimento da macroeconomia como uma ramo isolado da teoria econômica foi desencadeado por esta catástrofe e pode ser datado da publicação do livro Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de John Maynard Keynes, em 1936.

Compromisso com o pleno emprego e o crescimento

A grande depressão da década de 1930 não se limitou ao Estados Unidos.

Muitas das políticas de programas de governo atuais surgiram da experiência dos anos 1930 diante da visão de que os governos são responsáveis pela não repetição de períodos como a Grande Depressão.

As economias da Europa e da América do Norte estavam muito ligadas na década de 1920 e a crise tomou uma dimensão global.

O Estados Unidos produziam menos em 1937 do que em 1929. Apenas com a Segunda Guerra Mundial a partir de 1939 que a renda ultrapassou níveis passados e o emprego normalizou. Em 1944 a taxa de desemprego foi de 1,2%.

O fim da Segunda Guerra trouxe receios de nova recessão. No entanto, apesar de cair a demanda por materiais de guerra, o fim da década de 1940 foi marcado por forte crescimento da atividade econômica, impulsionado pelo consumo familiar. O governo aceito a responsabilidade de prevenir a repetição da Grande Depressão e o Congresso aprovou a Lei do Emprego em 1946, determinando que o governo federal crie “condições sob as quais sejam asseguradas úteis oportunidades de emprego… para aqueles aptos, dispostos e que buscam trabalho, e a promoção máximo de emprego, de produção e de poder de compra”.

Retomada da atividade econômica

Entre 1958 e 1963, a taxa de desemprego situou-se na média de 6%. O Conselho de Assessores Econômicos criado pela Lei do Emprego propos uma política baseada nas ideias de John Keynes, para estimular a economia e reduzir o desemprego a 4%, considerada à época um índice de “pleno emprego”. Envolveu um grande corte de impostos em 1964. A taxa de desemprego chegou a 3,5% em 1969 acompanhada com uma inflação de 6,2% reafirmando a crença de que um desemprego menor exigia a aceitação de inflação.

Estagflação

Na década de 1970, o desemprego aumentou para 5,4% em média e esperava-se que a inflação caísse proporcionalmente. Contudo esta manteve-se alta, contrapondo a crença deste trade-off.

A vitória sobre a inflação

O último grande aumento dos preços de petróleo em 1979 contribuiu para elevar a inflação de muitos países a patamares insuportáveis. O índice de desconforto, misery index, composto da soma do desemprego e inflação, foi o maior do pós-guerra.

Em outubro de 1979 a inflação foi reduzida com as maiores taxas de juros, mas o desemprego atingiu 10% em 1982.

Déficit público e déficit comercial

Vários governos mundiais enfrentaram altas dívidas públicas e déficit nas exportações durante a década de 1980.

Retomada da atividade econômica (outra vez)

A produção geral reduziu em 1990 e por isso o desemprego aumentou, contribuindo para a eleição de Bill Clinton. O baixo desemprego e inflação contribuiu para sua reeleição em 1996.

Ao fim do século, os EUA desfrutavam do menor desemprego desde 1970 e reduzida inflação. Entretanto, a ásia tinha sido castigada por crises financeiras, desemprego crescente e produção estagnada e muitos países europeus sofriam taxas de desempregos persistentemente elevadas.

Ao fim de 2000, a economia dos EUA mostrava sinais de parar de crescer quando foi eleito Bush.

Seguridade social

Legado da Grande Depressão, foi implantada em 1935 a Seguridade Social quando 50% dos idosos, correspondendo a 10% da população, viviam na pobreza e a expectativa de vida de 72,6 anos. Em 2001, a pobreza entre idosos caiu para 10%, estes subiram para 20% da população e a expectiva de vida para 82,2 anos, trazendo preocupações financeiras quanto a capacidade de solvência.

Estima-se que os fundos serão exauridos antes de 2050.

Estes programas afetam decisões familiares. Se confiamos na Seguridade Social para aposentar, temos menos incentivo para poupar. Estas poupanças que fornecem recursos para expansão industrial.

Seguro de depósitos

Entre 1930 e 1932, 9.000 bancos americanos quebraram quando depositantes em pânico tentaram sacar suas contas. Os clientes viam-se incentivados a serem os primeiros a retirar seus recursos, antes que o banco viesse a fechar.

Deste legado, o seguro de depósitos transmite confiança aos depositantes mas também incentiva os bancos a investir em projetos mais arriscados.

Na década de 1980, a atividade de investimento foi desregulamentada, e projetos de alto risco fracassaram. O governo gastou 500 bilhões de dólares para salvar as falências.

Cenários semelhantes ocorreram na Ásia e Japão.

O que é economia

Estuda como pessoas, empresas, governos e outras organizações fazem escolhas e como estas escolhas determinam a forma como a sociedade utiliza seus recursos, examinando 5 conceitos especiais.

Trade-offs

Escolhas envolvem trocas. Ter mais de uma coisa implica em menos da outra, como consequência da escassez de recursos.

A escassez é um fato básico da vida. Ainda que o alguém seja muito rico, o tempo é limitado. Não há almoço grátis.

Incentivos

Quando se deparam com escolhas, pessoas e empresas ponderam vantagens e desvantagens.

Incentivos são importantes para entender as escolhas.

Trocas

Na sociedade moderna ocorrem milhões de troca. As pessoas vendem seus serviços e trocam sua renda por bens e serviços produzidos por outras pessoas.

Estas transações englobam a economia de mercado. Os bens e serviços escassos ou que exigem mais recursos para serem produzidos têm preços mais altos, conduzindo a um uso eficiente dos recursos.

As empresas visam maximizar seus lucros esforçando para produzir pelo custo mais baixo possível os bens que os consumidores desejam. Contudo pode haver resultados inadequados como poluição ou pouco interesse na educação, saúde ou segurança.

Quando o mercado não funciona bem, as pessoas se voltam para o governo, formando a economia mista, onde depende principalmente mas não exclusivamente da livre interação entre produtores e consumidores. Em algumas áreas o governo impõe regulamentações afetando incentivos.

Países como antiga União Soviética e a China tentaram controlar o que e quanto cada fábrica produzia e o salários pagos. No entanto, se mostraram incompetentes para o desenvolvimento de novas tecnologias e produtos e até mesmo para o uso eficiente dos recursos.

A troca nos mercados é a chave para entender como são alocados os recursos, o que é produzido e quem ganha o que.

Informações

Decidir entre escolhas exige informação. Em muitas áreas existem empresas voltadas apenas para a prestação de informações. Em outras, o governo intervem para exigir que a informação chegue ao público, combatendo o uso de informação privilegiada.

A informação, ou sua ausência, determina a forma dos mercados e sua capacidade de uso eficiente dos recursos.

Distribuição

Os mercados determinam como os bens e serviços são alocados entre os membros da sociedade. Como consequência, a renda pessoal difere conforme as habilidades que são valorizadas pelo mercado.

Medidas sociais procuram amenizar o impacto distributivo mas pode desestimular o trabalho.

Os três principais mercados

Empresas Mercado Famílias
Vendem bens Produtos Compram bens
Contratam Trabalho Oferecem serviços
Investem Capitais Emprestam e investem

Cuidado com as palavras

Mercado de produtos: empresas vendem os bens que produzem

Mercado de trabalho: as famílias vendem e as empresas compras serviços de mão-de-obra

Mercado de capitais: fundos são comprados e vendidos

Micro e macroeconomia: os dois ramos da economia

A microeconomia se concentra no comportamento das unidades, sejam empresas ou famílias. A macroeconomia examina em particular o comportamento de indicadores globais, como taxas de desemprego, inflação, balança comercial.

A ciência econômica

A economia é uma ciência social que estuda os problemas sociais da escolha. Os economistas aplicam modelos no desenvolvimento de suas teorias.

Descobrir e interpretar relações

Uma variável é qualquer coisa que pode ser medida e que se altera, como preços, salários e taxas de juros. O que interessa aos economistas é a conexão entre as variáveis.

Os economistas recorrem a testes estatísticos para medir e testar correlações entre as variáveis.

Causação e correlação

Os economistas fazem mais do que identificar correlações. Procuram concluir que a mudança de uma variável causa alterações em outra.

Por que os economistas discordam

Quando descrevem a economia e constroem modelos, fazem economia positiva. Quando avaliam políticas, é economia normativa.

A positiva se preocupa com a descrição do funcionamento. A normativa com o que deveria ser.

Capítulo 2

Pensando como um economista

Pensamos como obter mais dinheiro trabalhando menos. Economistas examinam como pessoas, empresas e governo fazem escolhas em situações em que defrontam com escassez.

O modelo básico de concorrência

As empresas concorrem entre si por clientes. Os consumidores também concorrem entre si visto que há um número limitado de bens.

O modelo básico de concorrência perfeita supõe que os consumidores sejam racionais, que as empresas sejam maximizadoras de lucros e que os mercados sejam altamente concorrenciais. O modelo ignora o governo.

Consumidores racionais e empresas maximizadoras de lucro

A escassez implica que empresas e pessoas se deparam com escolhas de trade-offs.

A hipótese da racionalidade dos consumidores significa que as decisões são tomadas no interesse próprio, sem juízo de valor. A hipótese da racionalidade das empresas significa que operam para maximizar seus lucros

Mercados competitivos

Na concorrência perfeita, se uma empresa eleva seu preço em relação às demais, perderia todas suas vendas. Desta forma são tomadoras de preços, ou seja, não influenciam o preço de mercado mas tão somente o aceitam.

Em contraparte, os consumidores não conseguem pagar menos do que o preço vigente, porque eles concorrem entre si por um número finito de bens disponíveis, e as empresas sabem que haverão compradores para todo seu estoque dispostos a pagar o preço estabelecido.

Eficiência e distribuição no modelo básico de concorrência perfeita

O modelo básico de concorrência perfeita implica que a economia será eficiente. Os recursos escassos não serão despediçados. Não se produz mais de um bem sem produzir menos de outro. Uma pessoa não melhora de situação sem outra piorar.

O modelo básico de concorrência perfeita como padrão de referência

Este modelo não é uma representação perfeita da realidade mas é utilizado como um padrão conveniente levando a conclusões adequadas quando devidamente ajustadas.

Incentivos e informação: preços, direitos de propriedade e lucros

As economias de mercado oferecem informação e incentivo através dos:

Incentivos versus igualdade

Os incentivos trazem o custo da desigualdade ao vincular a compensação ao desempenho. Se há maiores incentivos, haverá também maiores desigualdades.

Os lucros oferecem incentivos para que as empresas produzam aquilo que as pessoas desejam e os salários incentivam as pessoas a trabalhar. Os direitos de propriedade também são importantes incentivos para investir, poupar e dar o melhor uso possível aos seus ativos.

Racionamento

Por filas: os bens são entregues aos mais dispostos a esperar. Exemplos são os ingressos de preço fixo e o sistema de saúde da Grã-Bretanha. Sendo custo de tempo dos trabalhadores de baixa renda menor, podem esperar mais, recebendo uma parcela desproporcional dos cuidados de saúde. É uma forma ineficiente de distribuir recursos pois o tempo perdido nas filas é um recurso desperdiçado. Em geral os mesmos objetivos são conseguidos através do sistema de preços.

Por sorteio: nos EUA os quartos universitários e matrículas em cursos são distribuídos por sorteio. Certos direitos de mineração e radiodifusão também já o foram. É ineficiente pois recursos escassos não vão para quem tem capacidade de pagar mais, tendo portanto mais disposição de atribuir-lhe valor.

Por cupons: a distribuição de bens para os indivíduos é limitada numericamente, que ainda pagarão o preço de mercado. É uma forma de impedir que os precos aumentem excessivamente. Os cupons não negociáveis provocam a mesma ineficiência da distribuição de sistemas que não consideram os preços

Conjunto de oportunidades e trade-offs

Um conjunto de oportunidades é a lista de opções possíveis para realizar uma escolha e avaliar os trade-offs.

Restrições orçamentárias e temporais

Restrições orçamentárias são impostas pela escassez financeira individual. Ou se compra duas televisões pequenas ou uma televisão grande.

Restrições temporais são impostas pela escassez do tempo. O tempo de estudo é limitado pelo de trabalho e ambos pelo lazer. Ao aumentar um, os outros serão reduzidos.

Curva de possibilidades de produção

As restrições orçamentárias individuais são expressas por uma linha reta enquanto a de produção é uma curva convexa. Os trade-offs da sociedade não são fixos como os individuais. Isto ocorre porque cada aumento na produção tráz dificuldades adicionais.

A curva reflete que para se aumentar a produção de determinado bem, recursos serão deslocados da produção de outro.

Ineficiências: quando se está fora da curva de possibilidade de produção

Se a economia opera abaixo da curva de possibilidades de produção, poderia-se ter mais de todos os bens. Se a busca pelo bem A é maior do que o bem B, a maior produção de B não justifica a redução de A. Há também ineficiência quando recursos ficam ociosos, como em recessões, seja terra, trabalho ou bens de produção.

Custos

Se a empresa, pessoa ou sociedade está operando sobre a curva, então o custo de uma unidade a mais de um bem é o quanto você tem que abrir mão de outro. Trade-offs são necessários porque os recursos são escassos.

Custos de oportunidade

Aplicar um recurso em algo significa não poder utilizá-lo em outra coisa. Uma empresa que deixa de utilizar um equipamento está deixando de ganhar com ele. É como se pagasse pelo privilégio de manté-lo acessível.

Custos afundados

É o valor investido que não traz benefício. Como a compra de um produto que passa a ser vendido mais barato em seguida.

Custos marginais

São os custos de se fazer ou adquirir mais do que se já o faz.

Comércio e troca

A troca voluntária é benéfica a todos envolvidos, caso contrário, se houvesse prejuízo para uma das partes, não ocorreria.

“Decepção” com a troca

A troca voluntária não significa que ambas partes saírão necessariamente felizes com os resultados.

Relações econômicas como trocas

As pessoas trocam seu tempo presente e passado (investido em capacitação) por dinheiro. Então o trocam por bens. As empresas trocam os bens por dinheiro e este por mão-de-obra.